EXISTE CERVEJA APÓS A MORTE
Era mais um daqueles domingos. Comendo água. Conversando e bebendo fiado. E nisso lá vai a vida dos outros, o time que vai descer, qual o político que roubou mais e se o churrasco tinha alguma coisa com a tal da aftosa. Tava na casa de meu tio e pedi pra ver se o jogo tinha começado. Alguém foi conferir e dei de cara com o Faustão. Porra! Só pra me lembrar que nada mudou e que a segunda vinha por aí. Mais dois copos e deixa aquele programa escroto pra lá. De repente, alguém chama meu tio e ele sai com mais dois da família. A cerveja não me deixou desconfiar de nada. Até pensei que ela tinha acabado e eles foram comprar mais. Demorou nada e eles voltam com uma informação estampada na cara e que só eu não conseguir ler: alguém da família tinha morrido.
As reações foram as esperadas. Não aceito, não tá certo, por que isso foi acontecer logo com ele e por aí vai. Quase todo mundo diz isso quando alguém mais chegado bate a caçoleta. Não é fácil, meu irmão. O cara tava ali, trocando idéia com você e de uma hora pra outra, um abraço. Eu não conhecia, mas todos diziam que era um cara legal. Embora isto seja muito suspeito, pois quase todos que morrem ficam legais. Então eu pensei que o domingo já era, mesmo antes da vinheta do Fantástico - que soa em meus ouvidos como um toque de recolher.
Do nada, alguém, sob o efeito do álcool, arriscadamente soltou em meio ao sofrimento geral: “Porra, eu sei que o momento não é bom pra dizer isso, mas o que aconteceu serve pra mostrar que a gente tem que aproveitar tudo que pode enquanto está vivo, porque depois...”. Minutos de silêncio, inclusive do corajoso que filosofou. Aí meu tio disse: “É isso mesmo. Vamo aproveitar e continuar bebendo”. Foi a senha pra galera se tocar que a vida e a cerveja não tinham acabado.
É de lenhar que não aprendemos a lidar com o inevitável. Muitos embarcam cedo demais e isto chateia. Mas não adianta. Quem morreu podia ter 150 anos, que mesmo assim é motivo de chororô e “eu também quero ir junto”. Fico pensando se um dia vamos aceitar melhor a hora de comer capim pela raiz. Tentar pelo menos imaginar que a vida não seja apenas esta com aluguel, CPI, Revista Veja, horário político e balcão BPN. E pensar que a morte não é algo tão ruim assim. Um dia, Faustão também vai morrer.
As reações foram as esperadas. Não aceito, não tá certo, por que isso foi acontecer logo com ele e por aí vai. Quase todo mundo diz isso quando alguém mais chegado bate a caçoleta. Não é fácil, meu irmão. O cara tava ali, trocando idéia com você e de uma hora pra outra, um abraço. Eu não conhecia, mas todos diziam que era um cara legal. Embora isto seja muito suspeito, pois quase todos que morrem ficam legais. Então eu pensei que o domingo já era, mesmo antes da vinheta do Fantástico - que soa em meus ouvidos como um toque de recolher.
Do nada, alguém, sob o efeito do álcool, arriscadamente soltou em meio ao sofrimento geral: “Porra, eu sei que o momento não é bom pra dizer isso, mas o que aconteceu serve pra mostrar que a gente tem que aproveitar tudo que pode enquanto está vivo, porque depois...”. Minutos de silêncio, inclusive do corajoso que filosofou. Aí meu tio disse: “É isso mesmo. Vamo aproveitar e continuar bebendo”. Foi a senha pra galera se tocar que a vida e a cerveja não tinham acabado.
É de lenhar que não aprendemos a lidar com o inevitável. Muitos embarcam cedo demais e isto chateia. Mas não adianta. Quem morreu podia ter 150 anos, que mesmo assim é motivo de chororô e “eu também quero ir junto”. Fico pensando se um dia vamos aceitar melhor a hora de comer capim pela raiz. Tentar pelo menos imaginar que a vida não seja apenas esta com aluguel, CPI, Revista Veja, horário político e balcão BPN. E pensar que a morte não é algo tão ruim assim. Um dia, Faustão também vai morrer.


6 Comments:
E tem que beber logo porque a Lei Seca do governador vem aí pra fechar os bares mais cedo. Isso, sim, é de morte.
Aproveitar enquanto é tempo é o que há
Essa galera é de matar !!
Êta galera escro...não perdoa nada. O diretor-geral do faminto estava presente e de conluio também.
Salve Brother! Como vc pode imaginar, aqui quem vos fala é O Poeta. Eu como você(na mais séria das colocações)também não sou dado a tecer comentários "internáuticos"
não obstante, não pude me poupar, frente ao tema do texto em pauta, de fazer a minha primeira incursão no mundo dos comentaristas "internéticos": O texto está DIFU. concordo plenamente com a idéia de que a vida é pra se viver... parodiando o velho Chico falando do velho Vinícius, que a propósito era também dado às vivências etílicas - a vida é pra valer. Saravá!
E a propósito, O genial Nelson Rodrigues, também já falava na sua peça" Viúva, porém honesta" que o morto é sempre um boa praça...um cara como que sem defeitos... Eu que sou cheio de defeitos e vivo pra cachorro, como diria Raulzito, espero que aquela nossa galera no dia do meu desembarque faça como se faz em determinadas regiões do Nordeste conforme retratado na novela "O rei do gado", da rede Bobo - beba o defunto durante o velório, pois após a vida a cerveja continua existindo. Falei.
Ps - Ah sim, não esqueça de me mandar o Mp3 do grupo Tincoãs.
Um abraço, Bradock!
EL Poeta.
As coisas mais importantes às vezes passam despercebidas. Tarde demais, notamos seu valor. O tempo tem esse poder de fazer-nos esquecer das coisas ruins e então sentimos apenas saudade e lembramos com ternura de coisas que se passaram tão rotineiramente. Mas isto mesmo é que chamamos saudade, é algo irreal, efeito da nossa imaginação e releitura do passado, que ganha leveza e novas cores. Um brinde à morte, e ao mistério que significa a nós. Abraços ao Ernandes, texto nota dez, heheh.
Adorei a despretenciosa crônica.
Já dizia Arnaldo Antunes:
" A morrer ninguém foi ensinado,
E todos morrerão".
Abraços e parabéns pela pela valiosa avaliação do nosso cotidiano midiático.
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