13.10.05

O CINEMA NUNCA FOI PRETO E BRANCO

Fui a uma das “Quartas Baianas” – sessões de filmes, curtas e documentários baianos – que rolam obviamente às quartas-feiras na Sala Walter da Silveira. Depois das projeções, um raro momento proposto por um dos organizadores para discutirmos o que tínhamos assistido. Raro, porque por aqui isto não rola. Normalmente as produções locais são assistidas por amigos e parentes dos produtores e tudo que acontece ao final são a rasgação-de-seda, os aplausos e o velho conhecido uuhuuuuuuhhh!!!!. Se for de alguém que já morreu, bastam aparecer os créditos para que várias cabeças se levantem na frente da tela e todo mundo parta a mil.

Pedem sempre a palavra figuras estereotipadas que parecem personagens e figurantes do musical Hair. Análises e falações enredadas muito mais complexas que os próprios filmes e, não pode deixar de faltar, o choro por falta de verbas e apóio. No meio de toda verborréia, um comentário que me fez acordar do sono que me dominava. Alguém (do filme Hair) disse entusiasticamente que com o aparecimento de novas tecnologias e barateamento de muitos equipamentos, todos poderiam fazer cinema. O comentário pareceu agradar e nenhuma voz ou movimento que parecesse destoar de tão generosa observação. Ainda acordava e olhei para todos os lados e para todos. Apesar da pouca luminosidade pude perceber características comuns a todos que ali estavam e ainda meio indolente gritei como um louco: O CINEMA NUNCA FOI PRETO E BRANCO! Assustados, todos que ali estavam retornaram da dimensão de onde estavam e voltaram os olhares para mim. Antes das críticas e questionamentos diante de afirmação tão sui generis e insipiente, completei: SEMPRE FOI BRANCO MESMO!

Depois, completamente acordado, percebi a literal queimação de filme. Parece que todos entenderam o que eu quis dizer, mas isto não estava no roteiro. Estava tão bom com todos ficcionando a realidade. Eu achando o preço do ingresso caro para assistir a um filmizinho no Multiplex e a rapaziada achando massa a socialização da sétima arte. Agora qualquer negro, pobre e que não tem o figurino de Hair pode fazer cinema. Até Spike Lee lá nos “isteites” foi lembrado para justificar a sacanagem. Continuaram as exposições de pontos de vistas para impressionar, mas sem jamais tocar em assuntos nos quais todos tinham sua boa e velha parcela de culpa.

Lembro de um espaço no bairro da Liberdade chamado Arte de Negro. Samba, pagode, percussão era o que rolava e estas foram as únicas artes que achava, na minha adolescência, que eram de negros. Não imaginava os irmãos com uma câmera no lugar de um tambor. O cinema é belo, intrigante e escroto. Deixa para a maioria apenas a contemplação e para uma minoria abastada o direito de dizer o que pensam e sonham, mesmo que pensem e sonhem muito mal. O escurinho do cinema vai continuar sendo apenas o ambiente pouco iluminado nas salas de projeção.

4.10.05

OS CINCO SENTIDOS

Vamos falar dos cinco sentidos. Se você já está pensando em mandar um e-mail dizendo que gosta muito do meu trabalho no Fantástico, pode parar. Eu sou negão, mas não sou o Lázaro Ramos. E eu vou falar dos sentidos em outro sentido. Alertando a todos dos perigos que os nossos órgãos sensoriais podem nos causar. Dividirei esta série em capítulos, como no Fantástico, mesmo não sendo o Lázaro Ramos.

A VISÃO

Um dos sentidos mais perigosos. Quem mora em favelas, subúrbios, trabalha no serviço público ou é Presidente da República sabe muito bem disto. Não é à toa que ninguém nunca vê nada quando alguma autoridade ou a imprensa pergunta alguma coisa. Também não é por menos que ninguém quer ser testemunha de absolutamente nada. Só as Testemunhas de Jeová (que viram o quê mesmo, hein?). Os que não apreciam formigas no café da manhã e não querem amanhecer com a boca cheia delas, desprezam aqui no Brasil o dom da visão e quase o tempo todo aderem à cegueira temporária.

Todas as coisas em que você já acreditou não enxergam. O amor é cego, a justiça é cega, Lula é cego. Até quando aconselham para que faça uma boa ação pedem para que não veja nada, pois “faça o bem sem olhar a quem”. E nos relacionamentos? Mesmo quando surge a suspeita que um par de chifres pode estar sendo posto na cabeça de um dos pares, aparece a velha frase: “enquanto eu não tiver vendo, tudo bem”. O que os olhos não vêem o coração não sente.

Outro grande mal que a visão proporciona: permite que você assista televisão. E o mal não está nos raios catódicos emitidos pelo tubo de imagem. Bastam algumas horinhas por dia com os olhos grudados na tela e você vai querer ficar com o corpo sarado usando o Total Shape; sentirá vontade de comprar mais roupas mesmo com o guarda-roupa cheio delas; vai achar que não existe preconceito no Brasil, mesmo com a assombrosa desigualdade entre negros e brancos nas novelas e comerciais; que vai passar no vestibular assistindo ao Aprovado; se encherá de dívidas e depois pensa que resolverá telefonando para o 0800 no canto da tela para pegar aquele maldito empréstimo.

Você deve estar pensando que este texto foi escrito pelo Jatobá, mas não é nada disso. É que alguém tem que ver, ou não, as coisas de outro ângulo. Ou você vai ficar fazendo vista grossa?